O teto de vidro é um termo que surgiu, pela primeira vez, em 1986 no periódico The Wall Street Journal para se referir à barreira invisível com que se deparavam as mulheres preparadas (mesmo com mais conhecimentos do que os seus colegas homens) e que as impedia de alcançarem cargos de responsabilidade na sua empresa.

Independentemente dos seus méritos e sucessos laborais, estas mulheres, devido às glass ceiling barriers (barreiras do teto de vidro), tinham muito mais dificuldades em crescer profissionalmente.

Já se passaram, nada mais, nada menos, do que trinta anos desde que este termo surgiu e, atualmente, às portas do dia 8 de março, Dia da Mulher, se olharmos em volta, resta muito por fazer e ainda temos um longo e intenso caminho a percorrer.

Histórias de mulheres que enfrentaram diversas formas de teto de vidro com êxito

Esta é a história de várias mulheres que enfrentaram o teto de vidro. E, tal como elas, centenas de mulheres têm de enfrentar, ainda em pleno 2020, essas barreiras todos os dias.

Almudena Alonso Herreros

Almudena é astrofísica doutorada pela Universidade Complutense de Madrid e pela Universidade de Oxford, em 1995. Realizou a sua investigação de pós-doutoramento no estrangeiro e regressou a Espanha com uma bolsa Ramón y Cajal.

Atualmente, trabalha no Centro de Astrobiologia do CSIC-INTA, em Villanueva de la Cañada (Madrid). Para além dos cargos mais elevados do pessoal de investigação (com muitos homens e poucas mulheres), Almudena deparou-se, ainda, com outro problema. Com 36 anos, tinha acabado de ser mãe e, durante a sua gravidez, escreveu o artigo com mais citações. Contudo, não conseguiu continuar a divulgá-lo, pois não lhe era possível viajar e apresentar o artigo em congressos.

Com um filho de cinco anos nos braços, candidatou-se ao Programa Internacional de Atracción al Talento de Cantabria. Ao contrário da maioria dos homens, a sua candidatura foi uma autêntica tortura em busca de amas, de pessoas que pudessem tomar conta do seu filho, separações e comentários, de ambos os géneros, do tipo: “estás a sacrificar a tua vida profissional” ou “não seria capaz de deixar o meu filho sozinho”.

Maite González

Diretora de Marketing no eBay, conta que, no setor do marketing, a realidade do teto de vidro é algo bem patente, mas que, de forma generalizada e transversal, está a desaparecer gradualmente.

Segundo indica Maite, o eBay é um marketplace que possui igualdade e diversidade total no seu ADN. Contudo, ainda existe muito a fazer relativamente aos obstáculos que impedem que as mulheres cheguem aos cargos de topo, como são os casos da maternidade, das jornadas duplas, dos estereótipos de género ou da anterior ocupação desses cargos por homens.

Raquel López Abellán

Advogada, com apenas 33 anos, já era sócia do seu próprio gabinete, especializado em direito comercial. Contudo, Raquel também se deparou com o teto de vidro. O primeiro entrave era colocado logo por alguns clientes, que, ao entrarem no escritório de advocacia (que dividia com um colega) perguntavam diretamente “pelo responsável do processo”, causando surpresa ao responder que era ela a responsável. Face à mesma, alguns dos clientes tomaram a decisão de não continuar a relação comercial.

Aos 28 anos, decidiu ter o seu primeiro filho. Teve de deixar de dar aulas na universidade e fazer malabarismos, com muita organização e determinação, para fazer avançar os casos.

Conta que, ainda hoje, quando um cliente lhe liga e Raquel está a cuidar dos seus filhos, prefere dizer que se encontra numa reunião. O mesmo não acontece com o seu marido, que tem a mesma profissão e que é elogiado quando comenta que se encontra na mesma situação.

Sara Giménez

Primeira mulher de etnia cigana licenciada em Direito em toda a região da Aragão, Sara se tornou igualmente a primeira advogada desta etnia a representar Espanha na Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa.

Contudo, existe um dado ainda mais relevante: foi a primeira mulher da sua família a frequentar a universidade.

Sara, ao olhar para trás, sabe que, por ser uma rapariga, foi quebrando barreiras sem se dar conta.

Aurora Egido

Filóloga hispânica espanhola, Aurora ocupa a cátedra de Literatura Espanhola na Universidade de Saragoça. Recebeu o Prémio Nacional de Investigação Ramón Menéndez em 2009.

Em 2017, foi nomeada secretária da Real Academia da Língua Espanhola (RAE). Foi a primeira mulher que o conseguia em 300 anos de história – um número surpreendente e que nos deve fazer refletir. Esta mulher incrível, natural de Molina de Aragón, recebeu a Medalha de Ouro do Governo de Castilla-La Mancha pelo seu contributo para o conhecimento da literatura espanhola, rompendo não só barreiras, como também estereótipos.

Estas são algumas das inúmeras histórias de mulheres que chegaram muito longe, tendo percorrido um duro caminho quer pessoal, quer profissional.

E é por isso que não devemos ter apenas consciência do famoso “teto de vidro” no Dia Internacional da Mulher, mas sim em todos os 365 dias do ano.